terça-feira, 25 de outubro de 2011

Navegante

Mestre Sales da dança de São Gonçalo
Segundo lugar no III Prêmio de Poesia Popular João Sapateiro, que tinha por tema: "Personagens da cultura popular de Laranjeiras".

De uniforme e chapéu de navegante,
ele vem lá na curva do caminho,
no seu passo bem leve, bem mansinho,
conduzindo um a um cada brincante.
Quem seria, meu Deus, esse almirante
de humildade gigante e histórias mil?
Quem conhece, quem sabe, quem já viu
não se cansa jamais de admirá-lo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

À medida que avança a procissão,
os brincantes, batendo os calcanhares
e entoando os seus cantos pelos ares,
vão ganhando de todos a atenção.
Olha o Mestre fazendo a marcação
e brincando feliz no corrupio!
Quem o vê a dançar assim macio
é tomado de encanto pelo embalo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

Tantas são as barreiras que ele enfrenta,
mas o Mestre é valente e não se cansa
de levar adiante a sua herança
— essa dança, que, a custo, ele sustenta.
Desafia trovão, tufão, tormenta,
mas não cede seu barco ao mar bravio,
afinal é teimoso e arredio
feito o mar que insiste em devorá-lo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

O futuro, entretanto, é muito incerto
e perder sua herança o Mestre teme.
Busca, pois, incessante, para o leme
quem não tema enfrentar o mar aberto.
Algum dia descansará, por certo,
ao saber concluído o desafio,
pois herdou, divulgou e transmitiu
a cultura do povo com regalo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

Wedmo Mangueira - 2011

Link da matéria sobre a entrega da premiação:
http://www.laranjeiras.se.gov.br/ler.asp?id=273&titulo=noticias

sábado, 22 de outubro de 2011

Medusa


O que ela faz comigo
bem abaixo do umbigo,
no segredo do seu quarto,
justifica

que ela seja a minha musa,
uma espécie de Medusa
cuja língua, além do olhar,
petrifica.

Wedmo Mangueira - 2009

terça-feira, 19 de abril de 2011

Marítimo IV



De vida, de infinito ou de algo além?
Quando a boca diz "mar", que gosto tem?


Wedmo Mangueira

terça-feira, 12 de abril de 2011

Marítimo III


“Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia me quiseste perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o poderoso achou por bem que te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos.”

 Jorge Luis Borges.

O segredo das coisas todas
repousa sob o teu manto
— véu azul que cobre o abismo
e espelha o tom do firmamento.
Embora inumeráveis monstros
habitassem as tuas sendas,
quantos Teseus destemidos
decidiram por se lançar
à tua amplidão infinita
— o mais cruel dos labirintos,
que não impede a travessia,
mas a transforma em absurdo!

Wedmo Mangueira

quarta-feira, 30 de março de 2011

Marítimo II


“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

Fernando pessoa

Um soneto que fosse como o mar:
estrutura de sal e ventania
cuja cor acompanha a luz do dia,
cujo humor acompanha a luz lunar. 

Um soneto que fosse como o mar:
tentador para aquele que o vigia,
mil perigos, contudo, propicia
ao incauto que o tenta atravessar.

Um soneto que fosse como o mar,
que ao erguer-se ante a rocha, sem cessar,
a desgasta e a transforma em areal.

Também possam meus versos, à maneira
do oceano, bater contra a pedreira
d'alma humana e tirar dela o seu sal.

Wedmo Mangueira

quarta-feira, 23 de março de 2011

Marítimo I

Ante o céu que se tinge de encarnado 
à medida que a luz do sol desmaia, 
para o mar, que se lança sobre a praia, 
lanço a luz de um olhar desconsolado. 

Um homem triste quedou-se ao meu lado... 
Os marulhos serenos da Atalaia 
devem ter - não sei bem - algo que atraia 
as pessoas de olhar atormentado. 

Ele, então, contemplando atentamente 
o oceano gigante à nossa frente, 
me falou no seu quase-sussurrar: 

“Todo aquele que tem o olhar aflito 
deveria mirar o infinito 
e sentir quão pequeno é seu penar.” 

Wedmo Mangueira - 27/11/2008 


Imagem: Ponta dos Mangues, por Thatiana Carvalho

Madrugada

- Alô?

- Saudades...

- ...

- Quem era, amor?

- Engano!

Wedmo Mangueira

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Naufrágio


Embora tenha nome de mulher,
corpo e cheiro de mulher
e os trejeitos e perigos
permitam supor que se trate de uma,
é mais que mulher...
É mar revolto, na verdade,
essa menina à minha frente.

Pudesse eu ser promontório,
avançaria seco ao seu encontro
e mergulharia em seus domínios,
apreendendo-lhe medos e mistérios.

Fosse-me vedado tocá-la,
contentar-me-ia em ser farol,
para, ao menos, contemplá-la à distância,
velando-lhe o sono,
protegendo-a de velhos marinheiros.

Contudo, ao fitar tanta beleza,
que mais posso querer ser,
senão nauta atrevido,
para poder passear por suas águas,
entregar-me a seus movimentos noturnos,
naufragar em meio aos seu recifes,
enroscar-me em seus sargaços
e amanhecer feliz e inerte em sua costa nua!

Wedmo Mangueira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ausência

Hei de edificar a vasta vida
que mesmo agora é teu espelho:
toda manhã hei de reconstruí-la.
Desde de que te afastaste,
tantos lugares se tornaram inúteis
e sem sentido, como
luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me esperavas,
palavras daquele tempo,
eu terei de quebrá-las com minhas mãos.
Em que profundezas esconderei minha alma
para que não enxergue tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e impiedosa?
Tua ausência me cerca
como a corda o pescoço.
O mar em que naufraga.

BORGES, Jorge Luis. Primeira poesia. Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Trecho de um dos contos mais bonitos que já li


Não tiveram que limpar seu rosto para perceber que era um morto estranho. O povoado tinha apenas umas vinte casas de tábuas, com pátios de pedra sem flores, dispersas no fim de um cabo desértico. A terra era tão escassa que as mães andavam sempre com medo de que o vento levasse os meninos, e os poucos mortos que os anos iam causando tinham que atirar das escarpas. Mas o mar era manso e pródigo, e todos os homens cabiam em sete botes. Assim, quando encontraram o afogado, bastou-lhes olhar uns aos outros para perceber que nenhum faltava.

Gabriel García Márquez, O afogado mais bonito do mundo


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Imagem: Foto de Ponta dos Mangues por Thatidye

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Desencontro

Você deve estar agora
andando por Copacabana,
chorando no chão da sala
ou desistindo de um livro chato.
Quisera eu estar agora
inteira sob teus quadris.
E estou – enquanto febres
atravessam-me enorme
e deslizo entre dedos e
mercúrio e memória
e a tua boca,
a tua boca.

Laura Assis

sábado, 27 de novembro de 2010

Choro bandido


"Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
"

(Chico Buarque/Edu Lobo)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tira as mãos de mim

Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco

Éramos nós
Estreitos nós
Enquanto tu
És laço frouxo
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se a febre dele
Guardada em mim
Te contagia um pouco

Chico Buarque

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os olhos


"se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade

e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo para eles não chorarem muito"

João Negreiros

sábado, 9 de outubro de 2010

Correnteza

Primeiro lugar no II Prêmio de Poesia Popular João Sapateiro, que tinha por tema: "Os 150 anos de João Ribeiro".

Quem diria que algum dia,
numa terra situada
entre morros e colinas,
entre vales e baixadas,
um menino nasceria
e teria a poesia
como rota, como estrada.

Tinha nome de riacho
- se chamava João Ribeiro.
Foi, talvez, devido a isso
que, na vida, o seu roteiro
sempre foi seguir em frente,
feito um fio de água corrente
indo a outro paradeiro.

Sua terra de nascença,
que o acolheu tão bem,
é a bela Laranjeiras
do profano e do amém,
do poeta Sapateiro,
que, a exemplo de Ribeiro,
se chamava João também.

Eis, então, que a mesma terra
que lhe foi berço e morada
teve de assistir um dia,
de maneira inesperada,
à partida do menino,
que, seguindo seu destino,
começava sua jornada.

Se lançou no Cotinguiba
e rumou pra capital,
concluindo no Ateneu
todo o seu ginasial.
Logo após foi pra Bahia,
onde, em pouco tempo, iria
procurar outro local.

Desistindo de cursar
medicina em Salvador,
foi pro Rio de Janeiro
e por lá se dedicou
com afinco ao jornalismo
e mostrou seu brilhantismo
também sendo professor.

Lançou obras importantes,
tidas como geniais.
Foi, por isso mesmo, eleito
pra ser um dos imortais,
figurando bem ao lado
de Romero, de Machado,
de Nabuco e outros mais.

Mas a imortalidade
que lhe foi atribuída,
incapaz foi de impedir
que lhe abandonasse a vida
e que sua trajetória
recheada de vitórias
fosse, um dia, interrompida.

Quando o seu corpo cansado
foi de encontro ao leito frio,
seu destino de ribeiro
fatalmente se cumpriu:
afastou-se da nascente
e, tal qual um afluente,
foi morrer em outro Rio.

O seu canto, entretanto,
não perecerá jamais.
Passa o rio, mas não passa
a beleza que ele traz.
Mesmo após ele partir,
poderemos sempre ouvir
os seus versos imortais.

Wedmo Mangueira – 06/09/2010


Link da matéria sobre a entrega da premiação: http://www.laranjeiras.se.gov.br/ler.asp?id=135&titulo=noticias

Confira aqui os outros poemas vencedores: http://www.laranjeiras.se.gov.br/ler.asp?id=136&titulo=noticias

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Equitação

Velo a sombra
que a tarde revela;
e um crepitar de chama
me chama
para a tua sela
- égua branca
no prado da cama.

Nuno Júdice

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O guarda-vidas

Olhos postos no mar, que a sua lida
é mirar o infinito mar afora...
Olhos postos no mar, que o mar convida,
mas, esfinge que é, também devora.

Quando o mira da areia, o guarda-vidas,
um duelo é travado nessa hora:
de um lado, a coragem destemida;
do outro lado, a grandeza que apavora.

No duelo com o mar, esse homem forte,
de onde as ondas rebentam, vai além...
Mas injusta, decerto, é sua sorte:

mesmo que inda resgate oitenta ou cem,
lá no fundo, ao perder alguém pra Morte,
ele sente algo em si morrer também!

Wedmo Mangueira - 10/08/2010
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Imagem: 1º Sgt Sinério

segunda-feira, 29 de março de 2010

Entre-lugar


Aurora,
está decidido!
Era teu ventre,
mas agora,
é teu entre-
pernas meu entre-
lugar preferido.

Wedmo Mangueira - 03/11/2009

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sinuosidades

A Shyrley

De silêncio e saudade se arquiteta
essa tarde voraz que me consome.
Tudo tem sempre o "s" do seu nome
quando a mente assim se me inquieta:
desde a réstia de sol que se projeta,
ao perfil sinuoso de algum monte;
desde o arco alongado de uma ponte,
ao esguicho da fonte de água turva.
Por você, nessa tarde, até se curva
toda a reta da linha do horizonte.

Wedmo Mangueira - 30/08/2009