sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cabaré no Sertão

2º Lugar no V Prêmio de poesia popular João Sapateiro

No sertão, todo dia é cansativo:
de manhã tem um galo estridente
despertando bem cedo toda a gente
pro trabalho esforçado do cultivo,
mas depois do cansaço excessivo
dessa dura rotina sertaneja,
tem cachaça, mulher, fumo e cerveja
no bordel que estiver menos lotado.
Cabaré no sertão é tão sagrado
quanto a missa aos domingos na igreja.

Pra alegrar de verdade a matutada
basta um monte de nega zuadenta.
Alcatrão, 21, pedra 90,
e a festa já tá organizada.
Ralar bucho até de madrugada,
escondido, sem que a patroa veja,
numa nega zambeta que manqueja
é o melhor passatempo já inventado.
Cabaré no sertão é tão sagrado
quanto a missa aos domingos na igreja.

O matuto não tem necessidade
de fazer essa tal de terapia,
pois no brega ele encontra, todo dia,
atenção e respeito de verdade.
Isso mostra a tamanha utilidade
do puteiro na vida sertaneja.
Não é só come-come e beija-beija.
Quem pensar desse jeito tá enganado.
Cabaré no sertão é tão sagrado
quanto a missa aos domingos na igreja.

Sendo eleito prefeito ou coisa e tal,
eu prometo criar um benefício
garantindo ao baixo meretrício
incentivos como isenção fiscal.
Pra aquecer o setor comercial
e alcançar o progresso que se almeja,
eu prometo também, pra quem me eleja,
um imenso bordel estatizado.
Cabaré no sertão é tão sagrado
quanto a missa aos domingos na igreja.

Wedmo Mangueira

Link da matéria sobre entrega da premiação: http://www.laranjeiras.se.gov.br/ler.asp?id=160&titulo=noticias

terça-feira, 2 de abril de 2013

Massagem

Não escondo,
nem nego
o trivial:
só me apego
— é natural —
a quem mexe
com meu ego
e com meu pau.

Wedmo Mangueira

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Cultivo


Laranjeiras vista do Alto do Cruzeiro, por Neu Fontes

Primeiro lugar no IV Prêmio de Poesia Popular João Sapateiro, que tinha por tema: "180 anos de emancipação da capital da cultura popular". 

Entre sete colinas encravadas
bem aos pés de um riacho de água pura,
uma vila de grande formosura,
tal qual uma semente, foi plantada.
No começo, não era quase nada,
mas o tempo danou-se a passar
e a semente, passando a germinar
de maneira sutil, silenciosa,
foi virando uma planta bem vistosa
que até hoje dá frutos sem parar.

Essa planta, distinta das demais,
se nutria de um jeito diferente,
não de vento, de água ou de sol quente,
mas de tudo que a sua gente faz:
suas danças e cantos ancestrais
que os escravos trouxeram do além-mar,
seus pedidos e preces, seu orar,
seu labor, seu suor, seus desafios,
suas feiras, igrejas, casarios,
sua história de luta secular...

Uma planta nutrida de tal jeito
geraria bons frutos certamente
— uma gente bastante inteligente,
que merece de todos o respeito.
Esses frutos, que canto satisfeito,
são pessoas do porte de Nadir,
de Seu Deca, que brinca o Cacumbi,
de Seu Sales, que leva o São Gonçalo...
Não me canso jamais de admirá-los
nestes versos que vou tecendo aqui.

São pessoas do porte de Zizinha
ou de Bárbara, líder das Taieiras.
São humildes, gentis e verdadeiras,
que nem Duda, Euclides e Lalinha.
Quase esqueço do Mestre Zé Rolinha,
pois são tantos que nem dá pra lembrar,
e outros tantos ainda irão brotar
dessa planta tão bela e brasileira,
uma planta chamada Laranjeiras,
capital da cultura popular.

Wedmo Mangueira - 12/07/2012



Link da matéria sobre a entrega da premiação:
http://kokalaranjeiras.blogspot.com.br/2012/09/prefeitura-de-laranjeiras-entrega-iv.html

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Domingo



Num momento impressentido,
sem querer, fui seduzido
por teus olhos de tocaia...

Desde então, me vi perdido,
como alguém que, sem sentido,
mata a mãe e vai à praia.

Wedmo Mangueira - 2012

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Imagem: "Homem no mar" (2010), aquarela de Eduardo Nadai.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um poema de Ezio Déda

Conheço Deus no esquecimento de minha casa
Ele descansa das súplicas cotidianas
Nas oscilações acústicas de minha insensatez
E sonha com o dia em que eu não precise mais estar ausente para que possa chegar
Somos duas naturezas estranhas que se sabem pelo que não se dizem
Ele, o ar intenso das atmosferas celestiais e do mundo sem fôlego
Eu, o elemento que peregrina insano nos calcanhares da criação.


Ezio Déda


Natural da cidade de Simão Dias-SE, Ezio Déda é arquiteto e escritor. Tem dois livros de poemas publicados:"Árvore de folhas caducas", de 2001, e "A casa das ausências", de 2010. Este último, do qual o poema acima faz parte, foi lançado pela Editora 7Letras.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Meta Linguística

Mesmo a meta sendo nobre,
fica registrada a dica:
se o poeta é feio e pobre,
pra que rima bela e rica?

Wedmo Mangueira - 2009

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Navegante

Mestre Sales da dança de São Gonçalo
Segundo lugar no III Prêmio de Poesia Popular João Sapateiro, que tinha por tema: "Personagens da cultura popular de Laranjeiras".

De uniforme e chapéu de navegante,
ele vem lá na curva do caminho,
no seu passo bem leve, bem mansinho,
conduzindo um a um cada brincante.
Quem seria, meu Deus, esse almirante
de humildade gigante e histórias mil?
Quem conhece, quem sabe, quem já viu
não se cansa jamais de admirá-lo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

À medida que avança a procissão,
os brincantes, batendo os calcanhares
e entoando os seus cantos pelos ares,
vão ganhando de todos a atenção.
Olha o Mestre fazendo a marcação
e brincando feliz no corrupio!
Quem o vê a dançar assim macio
é tomado de encanto pelo embalo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

Tantas são as barreiras que ele enfrenta,
mas o Mestre é valente e não se cansa
de levar adiante a sua herança
— essa dança, que, a custo, ele sustenta.
Desafia trovão, tufão, tormenta,
mas não cede seu barco ao mar bravio,
afinal é teimoso e arredio
feito o mar que insiste em devorá-lo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

O futuro, entretanto, é muito incerto
e perder sua herança o Mestre teme.
Busca, pois, incessante, para o leme
quem não tema enfrentar o mar aberto.
Algum dia descansará, por certo,
ao saber concluído o desafio,
pois herdou, divulgou e transmitiu
a cultura do povo com regalo.
Mestre Sales conduz o São Gonçalo
como um bom marinheiro, o seu navio.

Wedmo Mangueira - 2011

Link da matéria sobre a entrega da premiação:
http://www.laranjeiras.se.gov.br/ler.asp?id=273&titulo=noticias

sábado, 22 de outubro de 2011

Medusa


O que ela faz comigo
bem abaixo do umbigo,
no segredo do seu quarto,
justifica

que ela seja a minha musa,
uma espécie de Medusa
cuja língua, além do olhar,
petrifica.

Wedmo Mangueira - 2009

terça-feira, 19 de abril de 2011

Marítimo IV



De vida, de infinito ou de algo além?
Quando a boca diz "mar", que gosto tem?


Wedmo Mangueira

terça-feira, 12 de abril de 2011

Marítimo III


“Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia me quiseste perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o poderoso achou por bem que te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos.”

 Jorge Luis Borges.

O segredo das coisas todas
repousa sob o teu manto
— véu azul que cobre o abismo
e espelha o tom do firmamento.
Embora inumeráveis monstros
habitassem as tuas sendas,
quantos Teseus destemidos
decidiram por se lançar
à tua amplidão infinita
— o mais cruel dos labirintos,
que não impede a travessia,
mas a transforma em absurdo!

Wedmo Mangueira

quarta-feira, 30 de março de 2011

Marítimo II


“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

Fernando pessoa

Um soneto que fosse como o mar:
estrutura de sal e ventania
cuja cor acompanha a luz do dia,
cujo humor acompanha a luz lunar. 

Um soneto que fosse como o mar:
tentador para aquele que o vigia,
mil perigos, contudo, propicia
ao incauto que o tenta atravessar.

Um soneto que fosse como o mar,
que ao erguer-se ante a rocha, sem cessar,
a desgasta e a transforma em areal.

Também possam meus versos, à maneira
do oceano, bater contra a pedreira
d'alma humana e tirar dela o seu sal.

Wedmo Mangueira

quarta-feira, 23 de março de 2011

Marítimo I

Ante o céu que se tinge de encarnado 
à medida que a luz do sol desmaia, 
para o mar, que se lança sobre a praia, 
lanço a luz de um olhar desconsolado. 

Um homem triste quedou-se ao meu lado... 
Os marulhos serenos da Atalaia 
devem ter - não sei bem - algo que atraia 
as pessoas de olhar atormentado. 

Ele, então, contemplando atentamente 
o oceano gigante à nossa frente, 
me falou no seu quase-sussurrar: 

“Todo aquele que tem o olhar aflito 
deveria mirar o infinito 
e sentir quão pequeno é seu penar.” 

Wedmo Mangueira - 27/11/2008 


Imagem: Ponta dos Mangues, por Thatiana Carvalho

Madrugada

- Alô?

- Saudades...

- ...

- Quem era, amor?

- Engano!

Wedmo Mangueira

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Naufrágio


Embora tenha nome de mulher,
corpo e cheiro de mulher
e os trejeitos e perigos
permitam supor que se trate de uma,
é mais que mulher...
É mar revolto, na verdade,
essa menina à minha frente.

Pudesse eu ser promontório,
avançaria seco ao seu encontro
e mergulharia em seus domínios,
apreendendo-lhe medos e mistérios.

Fosse-me vedado tocá-la,
contentar-me-ia em ser farol,
para, ao menos, contemplá-la à distância,
velando-lhe o sono,
protegendo-a de velhos marinheiros.

Contudo, ao fitar tanta beleza,
que mais posso querer ser,
senão nauta atrevido,
para poder passear por suas águas,
entregar-me a seus movimentos noturnos,
naufragar em meio aos seu recifes,
enroscar-me em seus sargaços
e amanhecer feliz e inerte em sua costa nua!

Wedmo Mangueira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ausência

Hei de edificar a vasta vida
que mesmo agora é teu espelho:
toda manhã hei de reconstruí-la.
Desde de que te afastaste,
tantos lugares se tornaram inúteis
e sem sentido, como
luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me esperavas,
palavras daquele tempo,
eu terei de quebrá-las com minhas mãos.
Em que profundezas esconderei minha alma
para que não enxergue tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e impiedosa?
Tua ausência me cerca
como a corda o pescoço.
O mar em que naufraga.

BORGES, Jorge Luis. Primeira poesia. Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Trecho de um dos contos mais bonitos que já li


Não tiveram que limpar seu rosto para perceber que era um morto estranho. O povoado tinha apenas umas vinte casas de tábuas, com pátios de pedra sem flores, dispersas no fim de um cabo desértico. A terra era tão escassa que as mães andavam sempre com medo de que o vento levasse os meninos, e os poucos mortos que os anos iam causando tinham que atirar das escarpas. Mas o mar era manso e pródigo, e todos os homens cabiam em sete botes. Assim, quando encontraram o afogado, bastou-lhes olhar uns aos outros para perceber que nenhum faltava.

Gabriel García Márquez, O afogado mais bonito do mundo


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Imagem: Foto de Ponta dos Mangues por Thatidye

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Desencontro

Você deve estar agora
andando por Copacabana,
chorando no chão da sala
ou desistindo de um livro chato.
Quisera eu estar agora
inteira sob teus quadris.
E estou – enquanto febres
atravessam-me enorme
e deslizo entre dedos e
mercúrio e memória
e a tua boca,
a tua boca.

Laura Assis

sábado, 27 de novembro de 2010

Choro bandido


"Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
"

(Chico Buarque/Edu Lobo)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tira as mãos de mim

Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco

Éramos nós
Estreitos nós
Enquanto tu
És laço frouxo
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se a febre dele
Guardada em mim
Te contagia um pouco

Chico Buarque