quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Heliotropia


A Shyrley

Eu, que a chamava
por botão de rosa branca,
de brancura pura e franca,
sinto ser inadequado
o apelido que lhe pus.

Sua claridade
é de outra natureza:
traz em si, como que presa,
a leveza delicada
de um branco quase-luz.

Eu que sou a rosa
– maltratada e virulenta,
menos branca, mais magenta –
e vem dela toda a força
que me nutre e me conduz.

Wedmo Mangueira – 24/09/2008

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os rios atônitos


(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)

Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.
Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.
Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.
E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.
E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.

José Eduardo Agualusa

O escritor angolano José Eduardo Agualusa surgiu na década de 90 como um dos nomes de ponta da nova literatura africana (romancista, contista, poeta) em língua portuguesa e um dos autores mais importantes surgidos em Angola na última década. Nasceu a 13 de Dezembro de 1960 na cidade de Huambo, planalto central de Angola. Estudou Agronomia e Silvicultura e residiu, desde os seus tempos de estudante até época recente, em Lisboa. Atualmente, Agualusa reside no Rio de Janeiro, Brasil. É jornalista e membro da União de Escritores Angolanos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O papel do arquiteto


Projetar mil estruturas;
exprimir a opacidade
dos seus sonhos e loucuras
em concreta realidade;

arranhar grandes alturas;
enfrentar a gravidade;
traçar retas, curvaturas,
no horizonte da cidade...

Por ser belo o que projeta,
tanto faz se muro ou ponte,
o arquiteto é um esteta.

Até mesmo há quem aponte
que arquiteto é um poeta
cuja pauta é o horizonte.

Wedmo Mangueira - 16/04/2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Argonauta

















A Carlos Pena Filho.

Essa cor que te pinta a poesia
foi roubada metade ao oceano
e a outra metade, salvo engano,
foi roubada à serena luz do dia.

Dessa forma, e ao modo lusitano,
os poemas que a tua pena cria
tão repletos estão de maresia
que te ler é nadar em tom ciano.

Esse tom me sugere a cor do mar,
e é tão vivo esse mar que se projeta
dos teus versos pintados sobre a pauta,

que me ponho em silêncio a meditar
se te chamo somente de poeta
ou te chamo, poeta, de argonauta.

Wedmo Mangueira - 05/09/2009


Carlos Pena Filho (1929-1960) foi um poeta pernambucano, filho de pais portugueses, cuja obra se destaca, sobretudo, pelo forte acento pictórico. As cores azul e verde são recorrentes em sua poesia, bem como os temas marítimos. Foi parceiro de Capiba em muitas canções. Entre elas, destaque para “A mesma rosa amarela”, que ficou famosa na voz de Maysa. Morreu jovem, com apenas 31 anos de idade, em 1º de julho de 1960, vítima de um acidente automobilístico no Recife. Alguns dos seus poemas podem ser conferidos no seguinte site: http://www.elsonfroes.com.br/sonetario/pena.htm